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    March 20

    Um aporte sobre as raças

     

    Ontem assisti a um maravilhoso filme de Scola, chamado "Concorrência Desleal" (Concorrenza Sleale). Muito bom. O filme se passa na Itália fascista, às margens da Segunda Guerra. Iniciava-se então o preconceito racial no país. Toda a história passa-se em uma única rua de Roma, com foco em duas lojas vizinhas. Dois armazéns que comercializavam vestimentas. Um era de um alfaite italiano católico tradicionalista. O outro, de um judeu. Bom, toda a história se desenvolve em torno dos relacionamentos das duas famílias e de seus vizinhos.

    Há, no enredo, dois personagens que me chamar a atenção: Lele, o filho da família judia. Um garoto magrelinho, de óculos, de cerca de 10 anos. E o seu vizinho e melhor amigo (e também narrador da história), Pietruccio.

    O preconceito racial é, obviamente, um absurdo. De fato, é difícil entender porque havia tanto ódio contra judeus e outras raças prevalecendo na Europa naquele tempo. É complicado entender, porque hoje sabemos que todo ser humano é formado pelos mesmos órgãos, têm as mesmas capacidades cognitivas (os desvios interraciais são estatisticamente irrelevantes) e as mesmas capacidades emocionais. Um americano, um alemão, um judeu ou um negro - em sã consciência - emocionar-se-ia ao ver uma criança mutilada pedindo por ajuda. Isso é uma reação intrínseca de qualquer ser humano. Acreditar que uma diferença na tonalidade da pele ou nos traços físicos possa ser motivo de declarar superioridade ou inferioridade é uma imbecilidade sem tamanho.

    E aquelas crianças sabiam disso. Aliás, crianças sabem disso. Crianças parecem saber mais do que os  adultos que todos somos iguais. Todos somos seres humanos, o que nos torna aptos a amar, a sorrir, a sofrer, a chorar, a odiar. Todos temos necessidade de sermos reconhecidos como humanos, e sermos aceitos e tratados com igualdade, respeito e fraternidade. Cada um de nós tem suas peculiaridades, suas características individuais que nos tornam únicos. Mas, ao mesmo tempo, temos mais características humanas em comum com o mendigo da esquina ou um dos sultões da malásia do que características individuais que nos destaquem nesse meio.

    E as crianças sabem disso. Elas não tratam com diferença anormal o amigo "neguinho" ou o "japinha" da turma. Talvez devêssemos re-aprender a inocência e a não-preconceitualização, o não-abandono da moral humana em detrimento da poluição de idéias disseminadas ao longo de nosso crescimento. Talvez devêssemos honrar o adjetivo que tanto é usado para nos distinguir em meio aos seres vivos da nossa Biosfera. Talvez devêssemos ser mesmo racionais de vez em quando.

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