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March 30 Quando é explicada, a poesia se torna banal...
Bem, depois de umas semanas, resolvi baixar o supramencionado filme. Infelizmente minha inteligência não é tamanha a ponto de pensar em baixar as legendas (ou simplesmente uma versão legendada). Acabei baixando o filme original, em italiano. Acredito que seja desnecessário comentar que boa parte dos diálogos passaram incompreensíveis por mim. Mas de qualquer forma, compreendi o enredo do filme (e reli o script em uma página americana, enquanto revia algumas partes). A mensagem básica do filme é que todos podem ser aquilo que sonham, desde que se esforcem para tanto. Em particular, todos podem ser poetas. Quando o carteiro (Mario) pergunta ao poeta (Neruda) como se tornar um poeta, este lhe responde: "tente caminhar lentamente pela praia, até a baía e olhar ao seu redor." "E elas virão até mim, essas metáforas?", questiona o carteiro. "Certamente," responde o poeta. "Metáfora" é um termo recorrente ao longo do filme. Eu me arriscaria a dizer que "metáfora" é uma metáfora para a inspiração e a magia que movem o pensamento poético. Segundo o poeta, a poesia surge da observação do mundo em redor (aliás, o filme tem uma fotografia impecável; o local escolhido para as filmagens - a ilha de Salina, na Sicília - é paradisíaco). Toda a complexidade e simplicidade da Natureza é inspiração para a poesia. Concordo plenamente, e vou ainda além: é inspiração também para a ciência. Ciência e poesia são gêmeas univitelinas. Ambas tem o mesmo tronco. Ambas advêm da observação da Natureza. Uma estuda seu 'corpo', a outra sua 'alma'. Uma busca entender o porquê, e a outra o portanto. Tanto o poeta como o cientista são movidos pela mesma paixão, a paixão da compreensão máxima do Universo; o vislumbramento da simplicidade bela que compõe nossa existência. São ambos motivados pelo encontro do ajuste perfeito da Natureza em cada pequeno e singelo detalhe a nossa volta. São pesquisadores, observadores, críticos, admiradores e amantes. São ambos sinônimos de uma mesma metáfora.
P.P. Uma curiosidade do filme: o ator que faz o personagem principal (o carteiro), e também um dos escritores da trama, Massimo Troisi, adiou uma cirurgia cardíaca para que pudesse completar o filme. No dia seguinte ao fim das filmagens, ele foi acometido de um ataque cardíaco fulminante e faleceu. March 20 Um aporte sobre as raças
Há, no enredo, dois personagens que me chamar a atenção: Lele, o filho da família judia. Um garoto magrelinho, de óculos, de cerca de 10 anos. E o seu vizinho e melhor amigo (e também narrador da história), Pietruccio. O preconceito racial é, obviamente, um absurdo. De fato, é difícil entender porque havia tanto ódio contra judeus e outras raças prevalecendo na Europa naquele tempo. É complicado entender, porque hoje sabemos que todo ser humano é formado pelos mesmos órgãos, têm as mesmas capacidades cognitivas (os desvios interraciais são estatisticamente irrelevantes) e as mesmas capacidades emocionais. Um americano, um alemão, um judeu ou um negro - em sã consciência - emocionar-se-ia ao ver uma criança mutilada pedindo por ajuda. Isso é uma reação intrínseca de qualquer ser humano. Acreditar que uma diferença na tonalidade da pele ou nos traços físicos possa ser motivo de declarar superioridade ou inferioridade é uma imbecilidade sem tamanho. E aquelas crianças sabiam disso. Aliás, crianças sabem disso. Crianças parecem saber mais do que os adultos que todos somos iguais. Todos somos seres humanos, o que nos torna aptos a amar, a sorrir, a sofrer, a chorar, a odiar. Todos temos necessidade de sermos reconhecidos como humanos, e sermos aceitos e tratados com igualdade, respeito e fraternidade. Cada um de nós tem suas peculiaridades, suas características individuais que nos tornam únicos. Mas, ao mesmo tempo, temos mais características humanas em comum com o mendigo da esquina ou um dos sultões da malásia do que características individuais que nos destaquem nesse meio. E as crianças sabem disso. Elas não tratam com diferença anormal o amigo "neguinho" ou o "japinha" da turma. Talvez devêssemos re-aprender a inocência e a não-preconceitualização, o não-abandono da moral humana em detrimento da poluição de idéias disseminadas ao longo de nosso crescimento. Talvez devêssemos honrar o adjetivo que tanto é usado para nos distinguir em meio aos seres vivos da nossa Biosfera. Talvez devêssemos ser mesmo racionais de vez em quando. |
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