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日志


1月11日

Sobre as ligações humanas e as ligações químicas

 

Há um século, a Física sofreu uma revolução. Acreditava-se (por incrível que isso possa parecer ao nosso entendimento) que não restava mais nada por ser descoberto na Física; no máximo talvez o aumento da precisão nas medidas das constantes. Lorde Kelvin (sim, aquele mesmo cientista escocês da escala de temperatura absoluta) chegou a afirmar, em 1900, que "o céu está claro, exceto por duas pequenas nuvens no horizonte", querendo indicar que quase tudo podia ser compreendido pela Física atual, exceto por dois pequenos fenômenos... Mal sabia ele que estas duas pequenas nuvenzinhas transformariam-se em grandes tempestades, que alterariam para sempre o modo como vemos o mundo. Um dos fenômenos deu origem à Teoria da Relatividade, de Einstein; e outro à Mecânica Quântica. Esta última viria a mudar completamente nossa perspectiva do mundo molecular.

Todos os fenômenos químicos lidam basicamente com interações eletrostáticas, o que é fácil de se entender ao pensarmos nas moléculas como sendo construídas de entidades positivas (os núcleos) e negativas (os elétrons). Pensemos um pouco na molécula de Hidrogênio (H2), formada pela união de dois átomos de Hidrogênio. Quando os dois átomos se ligam, seus núcleos vão se aproximando gradativamente. Oras, se o núcleo é uma entidade positiva, então esperaria-se que eles se repelissem, certo? Contudo, o que se observa, é que os elétrons de ambos átomos apresentam uma tendência a se posicionarem no meio dos núcleos, agindo como uma espécie de "cola", permitindo então que os núcleos se aproximem mais.

Assim acontece com todas as ligações químicas. Os núcleos vão se aproximando até um ponto de maior estabilidade, a partir do qual qualquer aproximação maior leva a uma repulsão. Isso pode ser visualizado como abaixo:

 

Tudo que leva a uma diminuição na energia confere estabilidade; e analogamente, tudo que contribui para um aumento na energia leva à desestabilização de um sistema. No gráfico acima, o eixo da horizontal (marcado com r) corresponde à distância internuclear (a distância entre os núcleos dos átomos que se ligam), enquando o eixo da vertical representa a energia. A curva marcada no gráfico representa a curva de energia potencial da ligação química. Na extrema direita do gráfico, os átomos estão separados (r - a distância internuclear - é muito grande para que um átomo interaja com outro) e a energia potencial se mantém constante. A partir do momento em que os átomos começam a se aproximar, nota-se que a curva vai caindo, indicando que os dois átomos ligados são mais estáveis do que separados (porque a energia do sistema é menor). A curva cai até um ponto de mínimo, caracterizado pela distância r0 e uma energia E0 (marcados no gráfico). A partir daquele ponto, o sistema começa a se desestabilizar rapidamente com a aproximação dos dois átomos.

Bem, na prática o que acontece é o seguinte: as moléculas não têm aquela energia exata do mínimo. Elas ficam oscilando ao redor dele, como uma mola ou, se você preferir, como uma bolinha que fica passeando pela curva, subindo e descendo indefinidamente. O que isso significa é que as ligações químicas ficam se contraindo e se distendendo, e os átomos ligantes se aproximando e se afastando.

Qual o ponto de tudo isso afinal? Bem, se podemos fazer uma analogia com as relações humanas, podemos entender uma relação afetiva como uma ligação química. O que nos motiva a entrar em um relacionamento, seja ele puramente fraternal ou amoroso? Adquirirmos um estado de maior bem-estar, nosso análogo à estabilidade das moléculas. Vamos nos aproximando uns dos outros (e por aproximação entenda a aquisição de intimidade) e ficando cada vez mais estáveis, até que chega em um ponto em que qualquer avanço maior leva a uma consequencia negativa. E ficamos oscilando, como uma ligação química: outrora bastante próximos, outrora afastados; de vez em quando no ponto ótimo, mas nunca estagnados. Todas nossas relações ficam nessas oscilações. Às vezes as ligações químicas se rompem, devido a fatores externos, como um aumento de temperatura, pressão, ou a presença de uma outra espécie química reativa. O mesmo ocorre com nossas relações interpessoais: às vezes perdemos amizades, ou paixões, devido a ume série de fatores externos análogos: ciúmes, desavenças, amantes...

O mundo das moléculas é assim. Os átomos vão sempre se ligando e se separando até encontrarem outro átomo com o qual a ligação seja tão estável que só sob condições extremas pode ser quebrada. Assim como nós, ficamos com alguem aqui, conhecemos alguém ali.. até encontrarmos aquelas pessoas às quais nos ligamos tão profundamente e cuja ligação nos faz tão bem que é necessário muito esforço para nos afastar.

Talvez haja mais similaridades entre a química e a sociologia do que possamos imaginar... Ou talvez eu esteja divagando muito, como sempre...